12 Set 2026
6 min de leitura
A inteligência artificial tornou possível criar vídeos, áudios e imagens extremamente realistas de pessoas dizendo ou fazendo coisas que nunca aconteceram. Entenda como os deepfakes podem ser utilizados nas Eleições 2026 e como identificar possíveis conteúdos manipulados.

Imagine receber no WhatsApp um vídeo de um candidato durante as Eleições 2026. No vídeo, ele parece estar diante de uma câmera, fala com a própria voz e faz uma declaração polêmica. O rosto parece real, a voz parece real e o movimento da boca acompanha perfeitamente as palavras.
Mas existe um problema: aquele vídeo nunca aconteceu.
Com o avanço da inteligência artificial, tornou-se possível criar ou modificar conteúdos audiovisuais de maneira cada vez mais convincente. Rostos podem ser alterados, vozes podem ser reproduzidas e vídeos podem ser manipulados para fazer uma pessoa parecer dizer ou fazer algo que nunca disse ou fez.
Esse tipo de conteúdo é conhecido como deepfake e se tornou uma preocupação importante para as Eleições 2026.
Deepfake é um conteúdo produzido ou manipulado por inteligência artificial ou tecnologias semelhantes para criar, reproduzir ou alterar a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa de maneira realista.
O TSE estabeleceu recentemente critérios específicos para caracterizar um conteúdo como deepfake nas Eleições 2026. Segundo a Corte, o conteúdo precisa ter um grau de realismo ou verossimilhança e utilizar inteligência artificial ou tecnologia equivalente para criar ou alterar a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa viva, falecida ou fictícia.
Na prática, isso significa que uma pessoa pode aparecer em um vídeo dizendo algo que nunca falou, ter sua voz reproduzida artificialmente ou até mesmo ser colocada em uma situação que nunca aconteceu.
As ferramentas modernas de inteligência artificial conseguem analisar grandes quantidades de imagens, vídeos e áudios para aprender características de uma pessoa.
No caso de um rosto, por exemplo, um sistema pode analisar diferentes expressões faciais, posições da cabeça e movimentos para gerar uma representação digital bastante semelhante ao indivíduo original.
Com a voz, a tecnologia pode analisar gravações existentes para reproduzir características como timbre, ritmo e pronúncia. A combinação dessas tecnologias permite produzir vídeos em que uma pessoa parece estar falando algo que nunca disse.
E quanto mais material disponível sobre determinada pessoa, maior pode ser a quantidade de informações utilizadas para tentar reproduzir sua aparência e sua voz.
Durante um período eleitoral, um vídeo falso pode se espalhar rapidamente pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. Uma pessoa pode receber o conteúdo, acreditar que ele é verdadeiro e compartilhá-lo com amigos e familiares antes mesmo de verificar sua origem.
O problema aumenta quando o conteúdo envolve candidatos ou assuntos capazes de provocar uma reação emocional forte. Uma declaração polêmica, uma suposta denúncia ou um vídeo aparentemente comprometedor pode gerar milhares de compartilhamentos em pouco tempo.
O TSE considera o combate à desinformação uma das prioridades das Eleições 2026 e estabeleceu regras específicas para conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.
Não é simplesmente o uso da inteligência artificial que é proibido.
As regras eleitorais estabelecem obrigações específicas para conteúdos sintéticos utilizados em propaganda eleitoral. Quando aplicável, o responsável deve informar de maneira explícita, destacada e acessível que determinado conteúdo foi fabricado ou manipulado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente. A regra alcança conteúdos como textos, áudios, vídeos e imagens.
O TSE também estabeleceu restrições para novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas em um período próximo ao dia da votação. A publicação e republicação desses novos conteúdos, inclusive de forma gratuita, fica proibida nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas posteriores.
Em setembro de 2026, o TSE também definiu critérios para identificar quando um conteúdo pode ser considerado deepfake para fins eleitorais.
Nem sempre será fácil identificar um deepfake apenas olhando rapidamente para o vídeo. As ferramentas de inteligência artificial estão evoluindo e alguns conteúdos podem apresentar um nível de realismo muito alto.
Mesmo assim, alguns sinais podem ajudar. Observe se os movimentos da boca estão perfeitamente sincronizados com a fala, se as expressões faciais parecem naturais e se existem alterações estranhas na iluminação, no rosto ou no movimento dos olhos.
Também é importante prestar atenção ao áudio. Vozes geradas artificialmente podem apresentar mudanças incomuns de entonação, pausas estranhas ou pronúncias que não combinam com a maneira habitual de falar daquela pessoa.
Mas talvez o sinal mais importante esteja fora do vídeo.
Antes de compartilhar um vídeo político recebido pelo WhatsApp, Instagram, Telegram ou qualquer outra rede social, procure descobrir de onde ele veio.
Veja se o mesmo conteúdo foi publicado pelos canais oficiais do candidato, partido ou veículo de comunicação. Procure notícias sobre o assunto em fontes confiáveis e verifique se existem outras gravações do mesmo evento.
Também desconfie de vídeos que chegam acompanhados de frases como "compartilhe antes que apaguem", "a mídia não quer que você veja" ou "isso acabou de acontecer".
Esse tipo de mensagem tenta criar urgência e fazer com que a pessoa compartilhe o conteúdo antes de verificar se ele é verdadeiro.
A inteligência artificial também pode ser utilizada para criar áudios falsos, imagens manipuladas e textos produzidos automaticamente.
Um criminoso pode, por exemplo, utilizar uma voz artificialmente reproduzida para criar um áudio atribuído a uma pessoa conhecida. Também pode utilizar imagens manipuladas para criar uma situação que nunca aconteceu.
Por isso, durante as Eleições 2026, é importante não confiar automaticamente em um conteúdo apenas porque ele parece verdadeiro.
A aparência de autenticidade não é uma prova de autenticidade.
Se você receber um vídeo suspeito envolvendo um candidato ou qualquer outra pessoa, evite compartilhá-lo imediatamente. Primeiro, procure verificar a origem do conteúdo e compare a informação com fontes confiáveis.
Caso não consiga confirmar se o material é verdadeiro, o mais seguro é não contribuir para sua disseminação.
Em períodos eleitorais, alguns segundos gastos verificando uma informação podem evitar que um conteúdo falso alcance centenas ou milhares de pessoas.
A mesma tecnologia que pode ser utilizada para criar conteúdos falsos também pode ser empregada no desenvolvimento de ferramentas capazes de analisar informações, identificar padrões e auxiliar na detecção de comportamentos suspeitos.
Por isso, a discussão sobre inteligência artificial nas Eleições 2026 não deve ser apenas sobre os riscos da tecnologia, mas também sobre como utilizá-la de maneira responsável para aumentar a segurança e reduzir a disseminação de conteúdos manipulados.
A tecnologia tornou muito mais simples produzir conteúdos que parecem reais. Ao mesmo tempo, as regras eleitorais estão se adaptando para lidar com os novos riscos trazidos pela inteligência artificial.
O TSE já estabeleceu regras específicas para o uso de IA na propaganda eleitoral e, mais recentemente, definiu critérios para caracterizar deepfakes nas Eleições 2026.
Para o eleitor, a principal recomendação continua sendo simples: não acredite e não compartilhe imediatamente tudo o que recebe na internet.
Antes de compartilhar um vídeo, áudio ou imagem, pare, verifique a fonte e procure outras informações que confirmem o conteúdo.
Em uma eleição cada vez mais digital, saber identificar possíveis manipulações também faz parte da segurança na internet.
Fique por dentro de vulnerabilidades relevantes, boas práticas de segurança e novidades regulatórias como a LGPD.